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17/09/2020

POLÍCIA CIVIL ENFRAQUECE PODER DE ATAQUE DO "NOVO CANGAÇO" NO RN




Ações da Divisão de Investigação e Combate ao Crime Organizado da Polícia Civil do Rio Grande do Norte reduziram o número de ataques de quadrilhas organizadas contra a bancos, carros-fortes e caixas eletrônicos em 2019.
Em 2019 foram 7 explosões a banco - Foto: Cedida
A Polícia Civil do Rio Grande do Norte vem conseguindo um feito importante no combate às quadrilhas especializadas em explosões a bancos e carros-fortes e arrombamentos de cofres e caixas eletrônicos. Em 2019, foram 22 investidas dos criminosos em território potiguar. Este ano, até o momento, 16. A queda no número de ataques ocorridos no Rio Grande do Norte pode ser considerada uma vitória da segurança pública contra o chamado “novo cangaço”.
“Nos últimos 4 anos, a Secretaria de Segurança vem somando esforços na área investigativa, e isso tem enfraquecido o novo cangaço”, afirmou o delegado Erick Gomes, titular da Divisão de Investigação e Combate ao Crime Organizado (Deicor), em entrevista ao Agora RN.
O que é o novo cangaço?
O termo novo cangaço surgiu no início deste século, e vem sendo empregado como referência a ações de quadrilhas criminosas que invadem cidades para assaltar agências, postos e correspondentes bancários. Alguns bandos se especializaram em cercar rodovias para ataques a carros-fortes. Os métodos são muito semelhantes aos utilizados pelos cangaceiros que aterrorizaram o Nordeste no início do século 20, e que teve como maior expoente Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.
Equipes da Divisão de Investigação e Combate ao Crime Organizado (Deicor) – Foto: Polícia Civil do RN
Segundo Erick Gomes, em 2019 foram 7 explosões a banco, 10 cortes a caixas eletrônicos e 5 ataques a carros-fortes. Este ano, até o momento, também foram registrados 7 explosões a bancos, 9 cortes em terminais eletrônicos e nenhum ataque a carro-forte.
“Das 7 explosões a bancos registradas este ano no estado, apenas duas delas, ainda de acordo com o delegado, podem ser consideradas como ações típicas do novo cangaço. Aconteceram em Umarizal, na madrugada de 31 de janeiro, e em Campo Grande, na madrugada de 28 de fevereiro.
Em Umarizal, os bandidos chegaram à agência do Banco do Brasil em dois carros roubados, arrombaram as portas da frente do banco e fizeram uma explosão para tentar abrir o cofre. De acordo com o delegado Erick Gomes, os criminosos não conseguiram levar o dinheiro.
Já em Campo Grande, os ladrões levaram R$ 35 mil. O alvo também foi uma agência do Banco do Brasil. Na ocasião, o bando ainda tocou fogo em um dos veículos usados na fuga e grampos de metal foram jogados na BR-110 para dificultar qualquer possibilidade de perseguição. Centenas de tiros foram disparados pelas ruas da cidade. Balas atingiram a base da PM e o carro de um sargento.
Com relação às ações envolvendo corte de terminais – que são casos nos quais os ladrões usam maçarico para violar o caixa – o delegado destaca que a última ação aconteceu em junho. “Prendemos 10 investigados por cortes a caixas eletrônicos e já elucidamos 8 casos. Falta apenas um”, acrescentou.
Bandidos com medo de agir no RN
Outros dados importantes também foram revelados pelo delegado titular da Deicor. Ainda de acordo com Erick Gomes, 46 operações foram realizadas em 2019, totalizando 110 criminosos presos. Destes, 47 envolvidos com arrombamentos de terminais bancários e ações contra carros-fortes. Ao todo, 45 armas, sendo 12 fuzis, foram apreendidos. “Em comparação ao ano de 2018, reduzindo em 2019 mais de 70% os crimes contra unidades bancárias. Os dados deste ano ainda estamos fechando, mas certamente também teremos redução”, afirmou.
Em telefones apreendidos com os bandidos, o delegado Erick Gomes revelou que foram encontradas gravações de áudios nas quais as quadrilhas dizem ter medo de agir no Rio Grande do Norte. “Quando eles escutam falar na Deicor, eles correm. Eles dizem que preferem agir em outros estados, porque aqui a segurança pública tá agindo fortemente”, acrescentou.
Números
2019
Explosões a bancos: 7
Cortes de caixas: 10
Ataques a carros-fortes: 5
2020
Explosões a bancos: 7
Cortes de caixas: 9
Ataques a carros-fortes: 0
Fonte: Deicor
Valdetário Carneiro e o novo cangaço
Lampião foi o Rei do Cangaço. Ganhou o apelido por ter sido o mais bem-sucedido líder cangaceiro da história. Embora tenha deixado um rastro de morte e terror em várias cidades por onde passou, ainda é considerado por boa parte das pessoas como um herói – muito pela revolta contra o coronelismo, o descaso do poder público e as injustiças sociais no Nordeste. Já o novo cangaço teve um precursor menos aclamado, mas não menos temido: Valdetário Carneiro.
Natural de Caraúbas, no Oeste potiguar, Valdetário aterrorizou o interior do Rio Grande do Norte e de estados vizinhos entre os anos de 1990 e início dos anos 2000, quando se tornou um dos assaltantes de banco mais perigosos do Nordeste. Val, como era chamado, foi morto em confronto com a polícia em dezembro de 2003, na cidade de Lucrécia.
Os assaltos da quadrilha de Valdetário eram bastante violentos, quase sempre terminando em tiroteios e mortes de policiais e civis inocentes. Na mais emblemática ação do bando, em junho de 2002, os alvos foram os três bancos da cidade de Macau, atacados simultaneamente: Banco do Brasil, Banco do Nordeste e Caixa Econômica Federal. Estima-se que mais de R$ 500 mil tenham sido roubados naquele dia.
Em meio ao tiroteio, foi morto o delegado da cidade, Róbson Luiz de Medeiros Lira, fuzilado ao se aproximar de uma das agências. Na viatura ainda estava o delegado regional Antônio Teixeira dos Santos Júnior, que também foi baleado, mas sobreviveu com ferimentos no rosto e no braço.
Valdetário ainda participou de uma das mais surpreendentes fugas da história da Penitenciária de Alcaçuz, maior presídio do RN. Foi em novembro de 2000, quando ele foi resgatado junto com outros 29 detentos. Integrantes de sua quadrilha neutralizara a segurança da unidade utilizando metralhadoras de uso exclusivo das Forças Armadas.
Valdetário foi morto em confronto com policiais civis e militares no dia 10 de dezembro de 2003, em um sítio na zona rural de Lucrécia, cidade vizinha a Caraúbas.

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